sexta-feira, agosto 3


Para a nossa segurança?

Ontem dei-me a liberdades gastronómicas, e fui-me deliciar nos petiscos que a minha vizinha feira do marisco de Faro tinha para dar. Como palco a bela e nossa Ria Formosa, na mesa, seus frutos. Perfeito! Foi então que entre lagostins, camarões e sapateiras, não paravam de latejar, no meu já ébrio crânio, as palavras de Vasco Pulido Valente (Público - Má educação).
Em linhas gerais, faz a caricatura da fanática militância do exército germicida europeu, que em Portugal é representado pela ASAE - Autoridade de Segurança Alimentar e Económica, e todo o destrutivo efeito que tem causado nas nossas tradições, costumes e cultura. Contrapõe o excesso de zelo de tão afincadas formiguinhas, com seculares gerações de rija gente, à qual os hábitos lusitanos nunca causaram indisposições.
Regressemos às conquilhas, ameijoas, lagostas, navalheiras e afins. Envolvido então numa nuvem carbónica de aromas do Atlântico, dou por mim a pensar na ASAE e nas suas actividades. As palavras deram lugar à indignação e a indignação levou ao pânico de uns quaisquer agentes da ditadura lexiveante, entrarem por ali adentro e acabarem com toda a nossa folia. Claro que o meu medo não estava espelhado apenas naquele lugar particular, mas sim, reflectido em todas as maravilhosas actividades nacionais das quais fomos privados e as ainda muitas, que estes senhores das nossas escolhas urgem em fazer desaparecer.
Na minha pueril ignorância, acreditei que as normas de segurança dos nórdicos civilizados iriam melhorar a nossa saúde e qualidade de vida. Mentira! O que fizeram e têm feito, foi apenas modernizar e estandardizar meios de produção. Impingiram-nos um universo asséptico e clorificado em que tudo é incolor, inodoro e insipido. Mataram as nossas tradições em nome, do diametro uniforme, da refeição plastificada e da embalagem de vácuo. E ai do tapete de arraiolos que não tenha as cores ditadas pela ultima Cosmopolita, ou do galo de barcelos pintado sem cores acrilicas. Safa! Não se atrevam
A ASAE deveria servir apenas paragarantir na nossa segurança como consumidores, tendo já dado vários exemplos desse bom trabalho, como quando apreendeu 60 mil unidades de pasta de dentes falsificada e possivelmente perigosa. Mas fechar sites de pirataria? Software ilegal? Operações stop a inspeccionar veiculos à procura de cópias ilegais?Feirantes? Fechar o matadouro do Algarve mesmo este não apresentando riscos para a saúde? Se o Estado português se digna a canalizar dinheiro para tão avançados e nobres valores dos países ultracivilizados, como o combate da pirataria em prol dos interesses das multinacionais, também deveria ser capaz de resolver problemas jurídicos como o da casa Pía, os escândalos de corrupção, ou das FP-25. Se temos a capacidade de exigir aos nossos produtores que gastem fortunas a estragar o sabor dos nossos produtos, com plastificações, extra-purificações, conservações e muitos mais artificios também deviamos ter a coragem de defender os seus interesses no mercado europeu, em que não se deve exigir menos do que o livre mercado e a abolição de quotas.
Uma ASAE que combate o produto nacional e só se preocupa com piratarias que não incomodam o mercado português, para mim não nos serve como povo. Que nos interessa que se possa compra Vuitton's de papelão em Carcavelos, Levi's mal amanhadas no Martim Moníz ou DVD's do Van Dame em Quarteira. Quem compra a candonga iria comprar os verdadeiros na sua ausência? E se sim, faz diferença a Portugal suficientemente necessária para justificar este alarido e xinfrin de homens armas, carroças e cães que vemos todos os dias nas televisões e que nos consomem a paciência e os impostos?
Eu sei que na embriaguez do marisco da ria, dei por mim a imaginar os próximos titulos facultados pela actividade da ASAE - "ASAE proibe festas de verão por não ser possivel plastificar a cerveja em embalagens individuais"; "ASAE abate a tiro vendedor de pasteis de nata não uniformes - afastamento de 0,31 cm do diâmetro oficial com involucro não homologado pela união europeia";

Bem-haja!